Identificar a asma para melhor controlar

 

“Um registo nacional de doentes com asma é desejável.” Palavras do Dr. Mário Morais de Almeida, Presidente da Associação Portuguesa de Asmáticos, sobre a necessidade de controlar uma doença que já afeta 10% da população nacional.

asma

Concluímos hoje o trabalho que iniciámos na passada 3ª feira a propósito do Dia Mundial da Asma, que nessa data se assinalou.

Em entrevista ao nosso Blogue, o Presidente da APA fala dos números da doença, causas e tratamentos. Um importante alerta fica por conta da obesidade e da exposição ao fumo do tabaco – e nestes fatores existe, infelizmente, uma importante relação com as crianças…

– Os números da asma têm aumentado nos últimos anos?

Os dados mais recentes apontam para cerca de um milhão de pessoas com asma em Portugal, ou seja, aproximadamente 10% da população nacional. Cerca de 700.000 têm a doença ativa, isto é, com queixas ou medicação preventiva no último ano, e 300.000 tiveram uma crise no último ano.

Os primeiros sintomas de asma surgem frequentemente na infância (quase 80% dos casos manifestam-se antes dos 10 anos de idade), mas a doença pode manifestar-se em qualquer idade. Até 1/3 dos doentes poderão desenvolver asma já em idade adulta. Na infância, a asma afeta mais os rapazes do que as raparigas, mas após a adolescência o padrão inverte-se e a asma torna-se mais frequente no sexo feminino. As alterações hormonais poderão ter aqui um papel relevante. E de facto o número de asmáticos aumentou nas últimas décadas, em especial entre as crianças. 

– Para esse aumento, os fatores ambientais serão também responsáveis…

 A asma resulta de fatores genéticos (que herdamos da nossa família) e fatores do ambiente em que vivemos. É frequente haver outros elementos da família com asma ou com doenças relacionadas, como a rinite ou o eczema, mas os fatores ambientais contribuem de forma decisiva para o desenvolvimento e gravidade da asma. Entre estes, destacamos o tabagismo, a poluição ambiental, a exposição a alérgenos e as infeções respiratórias.

A obesidade merece uma atenção especial por estar implicada no aumento do número de casos de asma, sobretudo nas crianças, assim como na gravidade da doença. Da mesma forma, não podemos deixar de alertar para os perigos do tabaco, que não afeta só quem fuma, mas também quem está exposto ao fumo dos outros: em crianças expostas ao fumo de tabaco, o risco de sintomas de asma aumenta 2 vezes, e o risco de crises graves com internamento hospitalar aumenta 6 vezes. Apesar de ser este o principal fator de risco para a gravidade da asma na infância, estima-se que mais de 30% das crianças estejam expostas ao fumo de tabaco. Estes são graves problemas de saúde pública que requerem da sociedade uma resposta empenhada.

– Considera que o País está a dar a devida importância a esta doença, no aspeto informativo, de prevenção, etc.?

A asma é uma doença crónica, e as doenças crónicas geralmente não têm cura. No entanto, é possível ter asma sem sintomas. Tal como sucede com outras doenças crónicas, como a hipertensão ou a diabetes, o objetivo do tratamento da asma é o controlo da doença. Contudo, cerca de metade dos asmáticos portugueses não têm a sua asma controlada. A desvalorização dos sintomas pelo doente e / ou familiares, os mitos sobre efeitos adversos da medicação, as dificuldades económicas e falhas técnicas na utilização dos inaladores da asma, erradamente conhecidos como “bombas”, o que é bem assustador, são algumas das explicações para este problema.

– É possível ter asma e manter uma boa qualidade de vida? Os tratamentos têm evoluído para trazer maior bem-estar ao asmático?

Podemos dizer que sim. A asma, como as doenças alérgicas em geral, é uma doença inflamatória crónica e deve ser tratada como tal. Se compararmos a asma com um iceberg e entendermos que os sintomas são apenas a “ponta” do problema, rapidamente percebemos que a única forma de controlar a doença é tratar aquilo que está escondido, ou seja, a inflamação das vias aéreas. Tratar os sintomas com a medicação de alívio é fundamental, mas só resolve parte do problema. A origem do problema é a inflamação e é essa que precisamos combater diariamente com a medicação preventiva.

Os tratamentos inalados (respirados) são a opção mais eficaz e segura. Os corticóides inalados constituem a principal ferramenta no combate à asma e devem ser iniciados o mais precocemente possível. Em casos mais complicados poderá ser necessário associar um broncodilatador de ação prolongada para melhor controlar a doença. Os antileucotrienos, por via oral, são também uma opção a considerar, sobretudo em doentes que também sofram de rinite alérgica. As vacinas antialérgicas são outra arma muito importante. Para saber mais sobre esse assunto, é importante a consulta ao alergologista.

Além da medicação diária, todos os asmáticos devem ter medicação de alívio para as crises. Os broncodilatadores de início rápido são uma ajuda essencial nestes momentos.

– Sobre as despesas com medicamentos… São altas? 

A comparticipação do Estado é “suficiente”?

SIM, são altas! Em especial nas formas mais graves de doença, em que se torna difícil obter o controlo, os custos podem mesmo ser muito consideráveis, insuportáveis para alguns doentes / agregados familiares (até porque numa mesma família podem existir vários doentes asmáticos, que podem ter múltiplas comorbilidades). Importava que o apoio do Estado, que é significativo e suficiente para a maioria das situações, pudesse incorporar a gravidade intrínseca da doença, mesmo sabendo que a mesma possa ser variável ao longo da vida do asmático. Um registo nacional de doentes com asma grave é desejável. A existência de centros de excelência, hospitalares, onde é avaliada a indicação de medicações para os casos mais graves da doença, nomeadamente através da dispensa gratuita de agentes biológicos / anticorpos monoclonais, é mandatória.

 

CONSELHOS E PRECAUÇÕES:

As medidas gerais mais importantes são sobretudo não estar exposto ao fumo de tabaco ou outros poluentes, evitar infeções respiratórias e reforçar as defesas do organismo com vacinas anti-infeciosas, como por exemplo a vacina da gripe (recomendada para todos os asmáticos) ou a vacina antipneumocócica, e outros imunoestimulantes orais.

Isto, além de combater a obesidade através de uma alimentação equilibrada e diversificada e de uma prática desportiva regular.

Relativamente às alergias, existem algumas medidas úteis de controlo do meio ambiente, mas sempre ajustadas ao tipo de alergia identificado em cada caso – por exemplo, as medidas anti ácaros do pó são muito diferentes dos cuidados a ter quando há alergia a pólenes.

 

Para mais informações consulte: www.apa.org.pt ou https://www.facebook.com/APAsmaticos/

 

Agradecimentos:

Dr. Mário Morais de Almeida, imunoalergologista, Coordenador do Centro de Alergia dos Hospitais CUF e Presidente da APA.

 

Entrevista:

MLG – Comunicação e Serviços

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