O ALIMENTO NOSSO DE CADA DIA…

Como têm sido os hábitos alimentares dos Portugueses?
Fazemos uma visita ao tema, a propósito do Dia Europeu da Alimentação e da Cozinha Saudáveis, e numa altura em que muitos afirmam já não saber o que comer!

Assinala-se, a 8 de Novembro, o Dia Europeu da Alimentação e da Cozinha Saudáveis. E, poucos dias passados sobre as notícias de risco de cancro através das carnes vermelhas e processadas, é este, de facto, um tema incontornável na presente data…

Tudo começou com o estudo divulgado pela Agência Internacional para a Investigação sobre o Cancro, que revelou que a carne processada é cancerígena para os seres humanos e classificou a carne vermelha como provavelmente cancerígena, risco que aliás já estava identificado e declarado pelo Fundo Internacional para a Investigação Mundial do Cancro, desde 2007.
De facto, o atual relatório da OMS baseou-se em 800 estudos realizados nos últimos anos e que levaram esta Organização a inclui-los na lista de potenciais cancerígenos.

Mas enquanto produtores e comerciantes se preocupam, antecipando uma diminuição no consumo destas carnes, o Secretário de Estado da Alimentação avisa que não há perigo, desde que exista “moderação no consumo…”
Quanto aos consumidores, oscilam entre a apreensão e a despreocupação, esta última declarada por quem não tenciona prescindir do consumo habitual das suas salsichas, presunto, chouriços ou bacon…

“SOMOS O QUE COMEMOS.”
O nosso blogue foi conversar com Delphine Dias, da Associação Portuguesa de Nutricionistas, sobre diversos temas da alimentação – que não só estes “enchidos” da controvérsia.
Da resposta às nossas perguntas resultaram informações atuais sobre o mundo complexo que trata do que comemos e de como deveríamos comer para sermos – no melhor sentido da conhecida máxima – “o que comemos”!

– Como anda a “saúde” da alimentação na Europa? Como é que Portugal se posiciona em termos de uma dieta alimentar de qualidade?

Vários estudos têm revelado que os hábitos alimentares dos portugueses estão a sofrer alterações devido aos novos ritmos de vida. Assiste-se a uma deterioração dos hábitos alimentares dos portugueses pela falta de recursos económicos, pelo pouco tempo que têm para se preocupar com as questões da saúde, por falta de informação ou até de motivação. Atualmente, a elevada taxa de desemprego, o nível de pobreza, a diminuição da capacidade financeira e do poder de compra, podem fazer com que parte da população não apresente condições económicas para a aquisição de alimentos considerados essenciais, como por exemplo leite, fruta, legumes, peixe, carne, arroz, batatas, massa. Por tudo isto, é natural que as pessoas optem por alimentos mais baratos e menos ricos nutricionalmente; mas muitas vezes, mais do que por questões económicas, a baixa literacia pode estar na origem dessas escolhas.

– A nossa “dieta mediterrânica” protege-nos mais de doenças relacionadas com a alimentação?

Sabe-se que são diversos os estudos que têm sido efetuados no âmbito da Dieta Mediterrânica, pela sua relação direta com a saúde e melhoria da qualidade de vida dos indivíduos. Embora Portugal não contacte diretamente com o mar mediterrânico, pode incluir-se no grupo dos países mediterrânicos pela proximidade geográfica e pelas semelhanças tanto a nível cultural como ao nível dos hábitos alimentares. Portugal, um país com um estatuto marcadamente mediterrânico, tal como os outros países do Sul da Europa, tem vindo gradualmente a afastar-se da dieta tradicional tipo mediterrânico, o que é referido em diversos estudos comparativos da evolução da dieta mediterrânica nos diferentes países que a praticam. Este afastamento poderá estar relacionado com uma deterioração do estilo de vida e, particularmente, dos hábitos alimentares, que desempenham um papel preponderante no aumento destas doenças crónicas.

– Pode indicar-nos números da relação entre alimentação e diversas doenças…

Os últimos dados apresentados pela Direção-Geral da Saúde acerca da obesidade revelam a elevada prevalência na sociedade portuguesa (cerca de 1 milhão de adultos obesos e 3,5 milhões de pré-obesos). No que concerne à diabetes, segundo o Observatório Nacional de Diabetes a prevalência em Portugal é de 12,4% em indivíduos entre os 20 e os 79 anos.
As causas para a obesidade são múltiplas e complexas, podendo ter origem genética e metabólica. No entanto, a forte influência decorre de fatores ambientais e comportamentais como o sedentarismo e a alimentação inadequada. Esta doença crónica constitui uma ameaça para a saúde e requer esforços continuados para ser controlada, uma vez que, para além de provocar uma diminuição da qualidade de vida, é um fator de risco para o desenvolvimento e agravamento de outras doenças crónicas, tais como a diabetes tipo 2, hipertensão arterial, doenças cardiovasculares e alguns tipos de cancro. Sabe-se que a perda intencional de peso, se mantida a longo prazo manifesta-se numa melhoria da qualidade de vida, na redução da mortalidade e na melhoria das doenças crónicas associadas.

– Sobre alimentação saudável, qual o tipo de “formação” que seria ideal junto aos mais novos, incluindo também o papel das escolas?

À medida que as crianças crescem, vão adquirindo conhecimentos e assimilando conceitos sobre alimentação. Estes primeiros anos são ideais para fornecer informação nutricional e promover uma atitude positiva face aos alimentos. Esta educação informal e natural inicia-se em casa, com os pais e restantes familiares, como modelos. Os colegas e adultos, como os professores, treinadores ou ídolos do desporto e da televisão, influenciam o comportamento alimentar das crianças. Na escola, incluindo a direção, professores, estudantes e funcionários do serviço de alimentação, com os familiares e comunidade, devem ser estimulados a trabalhar de forma conjunta, com o objetivo de manter a integridade nutricional no ambiente escolar. A aquisição de um estilo de vida saudável enquanto criança determina os comportamentos alimentares na idade adulta, contribui para a saúde e bem-estar na adolescência e vida adulta e para a prevenção de doenças como a diabetes, obesidade e doenças cardiovasculares.
É importante ter consciência de que os pais, avós, amigos e professores assumem uma importância valiosa na educação alimentar das crianças; logo, a alimentação correta e adequada não pode ser descurada. Os educadores devem dar o exemplo, consumindo sempre com as crianças os alimentos que pretendem promover e evitando consumir os alimentos que pretendem que sejam evitados.

– As descobertas nesta área não param… De repente, alimentos até aqui insuspeitos podem aparecer como prejudiciais?

A ciência caminhará sempre no sentido de auxiliar a sociedade, e devemos sempre encará-la como uma mais-valia. Muitas vezes a descodificação da ciência para a comunidade não é feita da melhor forma, o que gera confusão. Existem muitas coisas que mudam, no entanto existem fundamentos relativamente aos estilos de vida saudável que são constantes e que está provado serem um benefício para a saúde. Sabemos que a alimentação deve ser equilibrada, completa e variada.

– Já sabíamos que os alimentos processados não eram ótimos… Mas qual o motivo de só agora surgirem estas preocupantes conclusões?

Devemos apelar à serenidade. Desde há muitos anos que é sabido que a exposição diária a este tipo de alimentos não é benéfica para a saúde, e que pode estar relacionada com o desenvolvimento de alguns tipos de cancro. A Organização Mundial de Saúde optou por compilar todos estes dados num relatório, e assim reforçar este alerta e mensagem. A população não deve ficar alarmada com esta notícia, no entanto deve consumir carne processada de forma moderada, e este consumo deve ser inserido num padrão alimentar moderado, onde sejam incluídos diariamente alimentos protetores, como a fruta e os hortícolas.

TOME NOTA!
A Associação Portuguesa dos Nutricionistas (APN) é uma Associação Profissional de direito privado, representativa dos Nutricionistas em Portugal.
Criada em 1982, um dos seus objetivos é o contributo para o desenvolvimento das Ciências da Nutrição e Alimentação.
http://www.apn.org.pt

Agradecimento:
Delphine Dias – Nutricionista e Assessora Técnica
da APN – Associação Portuguesa de Nutricionistas.
geral@apn.org.pt

Coordenação de entrevista e textos:
MLG – Comunicação e Serviços
mlg@mlg.pt

***

ORIGEM DESTE DIA
O Dia Europeu da Alimentação e da Cozinha Saudáveis celebra-se anualmente a 8 de Novembro nos estados membros da UE.
Lançada pela Comissão Europeia, a data pretende combater a obesidade, incentivando os cidadãos a optarem por um regime alimentar equilibrado e a fazerem mais exercício físico, encorajando uma alimentação saudável nas crianças, a fim de travar o atual crescimento da obesidade infantil na Europa, já que é na infância que se formam muitos dos nossos padrões de estilo de vida.
Na União Europeia metade da população adulta e um quarto das crianças em idade escolar têm excesso de peso, sendo que os jovens com excesso de peso tendem a conservá-lo na idade adulta e têm mais probabilidades de vir a ser obesos.

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